O maior de todos os tempos

Roberto Jardim
5 min readDec 30, 2022
Arte Iconicosdofut

POR ROBERTO JARDIM
bobgarden@gmail.com
@bobbgarden

Acho que não existem dúvidas. Pelé, que veio ao mundo como Edson Arantes do Nascimento — falecido aos 82 anos, no dia 29 de dezembro de 2022 –, foi, é e será sempre a maior personagem brasileira de todos os tempos. Arrisco a dizer que, dada a repercussão da sua morte, sua grandiosidade não se restringe ao território nacional.

Ele é a maior figura pública planetária, acredito.

Não existem atletas, reis, políticos, cantores, atores etc. que estejam gravadas tão fortemente no imaginário mundial. Podemos colocar Beatles, Elvis, Sinatra, João Paulo II, Elisabeth II ou qualquer outro nome das últimas seis décadas. Nenhum supera ou superará o eterno camisa 10.

Atrevo-me a antecipar que mesmo — e principalmente — ,hoje em dia, com a efemeridade das redes sociais, nenhum nome superará a grandeza de Pelé. E, certamente, nenhum nome teve, tem ou terá a importância do guri que foi chamado de rei pela primeira vez quando tinha apenas 17 anos.

Para lembrar, Nelson Rodrigues escreveu numa longínqua coluna publicada entre o final de 1957 e começo de 1958, após um América-RJ x Santos, no Maracanã:

Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem, verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis.

Futebol arte

Vamos além dessa majestade precoce, no entanto.

Dentro do futebol, suas marcas e números são inalcançáveis. Quase 1,3 mil gols e cinco títulos mundiais — três com a Seleção e dois com o Santos — já seriam suficientes. Ele, porém, não se contentou a isso. Ao longo dos anos, conseguiu elevar, com seu talento infindável, o futebol ao patamar de arte.

Tudo o que os “craques” de hoje desfilam nos gramados impecáveis, Pelé já fez antes em canchas muitas vezes irregulares, com uniformes e chuteiras infinitamente mais rudimentares. Pegue qualquer vídeo no YouTube e confira — lhes trago um, mas existem muitos outros.

Como obra prima, sugiro os lances da Copa do Mundo de 1970, disputada no México e vencida, claro, pelo Brasil. A cabeçada defendida por Banks. Os quase gols contra a Tchecoslováquia e Uruguai. O gol de cabeça contra a Itália.

E, o primor dos primores, o passe para Carlos Alberto Torres encerrar os 4 a 1 que deram o tricampeonato à Seleção. Cada uma dessas jogadas é uma pintura, um conto, um poema, uma música, um filme dos mais lindos e marcantes.

Junto ao que ele fez pelo jogo de bola, coloquemos o que ele representou para o Brasil como nação. Além de acabar com o complexo de vira-lata, criada em outra crônica certeira de Rodrigues, Pelé colocou o País no mapa do mundo. Suas jogadas magistrais e os títulos que ganhou fizeram muito mais pelo Brasil do que qualquer presidente ou diplomata.

Engajamento

Alguns incautos podem reclamar da falta de engajamento do Rei. Sinto dizer cordialmente que, no meu olhar míope, estão equivocados. E muito!

Vejamos na questão racial. Em tempos nos quais reclamamos da falta de representatividade nas telas — seja por falta de jornalistas ou de atores e atrizes como protagonistas — ou nos postos de comando em empresas e cargos públicos, não podemos negar que Pelé foi um precursor nesse sentido.

Vivemos numa nação racista, certo? Imagine, então, como era no passado. Pelé, contudo, driblou esse racismo e fez de um homem negro o principal nome brasileiro conhecido mundo afora.

E foi, ainda, garoto propaganda de inúmeras marcas — assim como vestiu a camisa da campanha Diretas Já. Ainda abriu negócios — muitas vezes contrariando uma sociedade que não via um negro como empreendedor — e foi recebido por inúmeras autoridades.

Pelé na capa da Placar defendendo a campanha das Diretas Já

Tudo isso, sendo um homem preto vindo da pobreza. Se com isso, ele não fez muito pelos negros, não sei o que mais ele poderia ter feito. Ainda mais em uma época em que pouco se falava na luta antirracista. Não podemos esquecer que, salvo algumas exceções, todo ser humano é reflexo do seu tempo.

Acrescento que os críticos desse ponto de Pelé devem colocar a mão na consciência e pensar no que fizeram por qualquer tipo de engajamento. Gosto muito de uma frase do jornalista Juca Kfouri que sempre comenta “não gostar de cobrar heroísmo com pescoço alheio”. Então, antes de criticar o camisa 10 nesse sentido, seja você o herói daquilo que cobra.

Para fechar, também existem os detratores nas questões pessoais, estas ligadas, certamente ao Edson. Claro, não reconhecer um filho ou uma filha é algo imperdoável, sim. Mas, como jornalista, acredito que sempre é preciso conhecer todos os lados — e não os conheço. Também posso dizer que não sou juiz para condenar quem quer que seja.

Prefiro, porém, colocar os erros de Edson, ou de Pelé, na conta daquilo que o tira da realeza e o coloca no mesmo nível de todos nós. Ou seja, não existem seres humanos perfeitos, coerentes, irreparáveis. Somos todos — eu e você inclusive — imperfeitos, cheios de incoerências. E, assim, capazes de errar feio em alguns momentos de nossas vidas.

Por tudo isso, acredito que Pelé foi, é e sempre será o maior ser humano das últimas décadas. Nenhum o supera, mesmo com todas as incoerências que Edson teve em sua vida. E, dessa forma, Pelé continuará vivo, influenciado o futebol e, por que não, o mundo, sendo lembrado por muitos e muitos anos ainda.

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Roberto Jardim

Jornalista, dublê de escritor e pai da Antônia. Tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente nessa ordem. @Democracia_FC